quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Nelson Rodrigues e a Censura Teatral Parte 1


Nelson Rodrigues foi sistematicamente censurado. Nos jornais, nas peças, nos livros ou
nas novelas. Mesmo sendo o autor, desde a encenação de ‘Vestido de Noiva’, considerado
um dos responsáveis pela renovação do teatro brasileira.
O autor Nelson Rodrigues foi escolhido – sofreu 13 processos de censura e onze peças – por sua importância no cenário cultural brasileiro da época e da atualidade. Ele é, desde a sua morte, o dramaturgo
brasileiro mais representado.
Tendo o autor atingido o status de unanimidade nacional, calaram-se todas as vozes, inclusive a dos censores, que teimavam em definir sua obra como sensacionalista,melodramática ou mórbida.
A terceira peça de Nelson Rodrigues, ‘Álbum de família’, foi proibida nacionalmente. Isso porque, já nessa época, o autor era conhecido pelo sucesso de critica e de público da peça Vestido de Noiva, até hoje conhecida como marco inicial do teatro moderno brasileiro.
Essa foi a primeira vez que Nelson foi censurado, mas não foi a última. A peça Senhora dos afogados foi vetada nacionalmente, e quando liberada, foi proibida no Estado de São Paulo.Também Perdoa-me por me traíres foi proibida nesse estado, graças a uma iniciativa da Liga das Senhoras Católicas. Mas todas as vezes que o governo, a igreja ou algum órgão da sociedade ameaçava impedir a encenação das peças ou de partes dela, o autor não ficava de braços cruzados.
Sua principal arma era a mesma que lhe censuravam: a palavra. Midiático, Nelson chegou a usar o veto da censura como arma publicitária, como aconteceu com a peça Anjo Negro, no cartaz publicitário.

Autora: Carolina Oms
Texto extraído da Revista Anagrama – Revista Interdisciplinar da Graduação
Ano 2 - Edição 2 – Dezembro de 2008/Fevereiro de 2009

Frases do Nelson




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ilustres militantes


Nos extremos ideológicos da ditadura, Nelson Rodrigues e O Pasquim trocaram farpas afiadas, mas acabaram aderindo à mesma causa: a defesa da anistia.

Elio Chaves Flores
7/7/2008


•          Lançado em junho de 1969, no olho do furacão das tensões que varriam o Brasil e o mundo, o tablóide humorístico O Pasquim não poderia ter outro alvo preferencial para suas críticas que não os “brucutus” do governo militar.

Bater na ditadura – embora com o evidente cuidado de driblar os censores – era quase uma obrigação. E não havia do outro lado resposta à altura das ironias inteligentes de jornalistas e chargistas como Sérgio Cabral, Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo e Millôr Fernandes. Foi no front intelectual que eles encontraram um opositor com gabarito para enfrentá-los: o consagrado dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980). Por seu temperamento genioso, irônico e anticomunista, o genial autor de “Vestido de Noiva” encarnava o representante máximo da execrável direita inteligente. Escolhido como símbolo reacionário, rapidamente entraria na mira do jornal alternativo. E não o deixaria sem resposta.

Na verdade, não é possível saber que lado começou a contenda. Desde o golpe militar de 1964, a tensão entre perseguidores e perseguidos estava presente não somente nos partidos políticos e sindicatos, mas também nos nichos da intelectualidade, especialmente nas universidades e na imprensa. Em 1968, Nelson Rodrigues publica uma sátira cruel à Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação da década contra a ditadura militar. Sob o rótulo de “esquerda festiva”, alfineta as classes médias que contestavam o regime: “Os Cem Mil eram filhos da alta burguesia. E, com efeito, não havia, entre os manifestantes, um preto, um favelado, um torcedor do Flamengo e sequer um desdentado. Os Cem Mil tinham uma saúde dentária de artista de cinema. Um turista, que por aqui passasse e os visse, havia de perguntar: -  Mas a alta burguesia quer tomar o poder que já tem?” Em outra crônica do mesmo ano, perguntaria pelas figuras obrigatórias nas manifestações populares que, segundo ele, não estavam presentes nem nas passeatas nem nas fotografias da revista Manchete: “os negros, o vendedor de laranjas, o batedor de carteira e a mãe plebéia, a santa crioula que tira o seio negro e generoso e dá de mamar ao crioulinho sôfrego”.

Em outubro de 1969, noventa dias depois de criado O Pasquim, o confronto  O Pasquim tejá era aberto. “De vez em quando, vem alguém me dizer:  meteu o pau! Ora, não me considero uma glória oficial”, escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica amargamente intitulada “Humoristas Rancorosos”. Nela, o cronista propõe uma análise histórica sobre o humor nacional. “Sabemos que o brasileiro é o único povo que faz piada. Se não temos um  é a piada que torna inviável qualquer Dráculavampiro, estejam certos:  brasileiro. No fundo, no fundo, a piada é um gesto de amor. É ou era. Mas os tempos passam e os usos, costumes, valores, sentimentos vão mudando”. Ao comparar os humoristas da velha geração com as críticas esquerdistas de seu tempo, conclui, certeiro: “Há muitos anos que não acho graça nos humoristas brasileiros. Mas sempre achei que o defeito era meu. Só agora é que, acidentalmente, lendo O Pasquim, vejo que as coisas mudaram muito. Deixando de lado duas ou três exceções, faz-se, no Brasil, o humorismo do ressentimento”.

De fato, era um desafio preservar a leveza e a eficácia do humor nos anos de chumbo. Com a pauta das edições sempre no campo de lutas das esquerdas ou, pelo menos, com um forte sentimento de oposição à ditadura, os pasquinianos não cansavam de estimular a polêmica entre intelectuais. Suas entrevistas, realizadas ora em botecos, ora na redação, tornaram-se momentos de discussões acirradas sobre desafetos e ex-amigos. Em maio de 1970, Chico Anísio, um dos astros do humorismo televisivo, respondeu assim quando lhe pediram sua opinião sobre Nelson Rodrigues: “É invejoso em primeiro lugar. (...) Tudo o que ele escreve, as coisas mais dramáticas, eu acho graça. Eu acho ele um tremendo humorista, embora ele pense que é um dramaturgo”. Dois anos depois, o entrevistado seria o escritor Antonio Callado (1917-1997), autor de um dos romances referenciais sobre a luta armada: Quarup, de 1967. Callado havia sido amigo íntimo de Nelson Rodrigues, que o transformara em personagem de vários de seus escritos nos jornais. A amizade foi sepultada quando Nelson publicou a crônica “Adeus a um amigo socialista”. No texto, indagava como um intelectual, com “um sorriso bem ensaiado, de uma compassiva ironia”, podia defender o assassinato de inocentes, isto é, que para os guerrilheiros fosse legítimo executar embaixadores. Não foi possível comprovar que Callado realmente tenha dito isso, mas com certeza Nelson generalizou uma idéia dele. Quando os entrevistadores de O Pasquim abordaram o tema, Callado afirmou que, na República, “as idéias são tidas como menos importantes que os amigos”. E emendou, ácido: “Nelson Rodrigues é o grande clássico das Forças Armadas”.

Entre as teses destiladas por Nelson, a que mais irritava Ziraldo, Jaguar e companhia era de que as esquerdas e os socialistas dominavam as redações dos jornais. Como acusações do gênero eram publicadas quase diariamente nas páginas de O Globo, suas crônicas eram vistas como um pedido para que a polícia prendesse jornalistas. Soava como dedurar colegas e profissionais da classe, “uma vocação legítima de pelego jornalístico” e “pau-mandado da direita”, nas palavras de O Pasquim.

As esquerdas também procuravam reduzir seus méritos artísticos, lançando mão de um discurso moralista: o dramaturgo era tachado de polêmico, maldito e tarado. Mas isso era como atirar na água. O próprio Nelson definia-se como um espectador privado e intimista dos costumes e obsessões da sociedade brasileira: “O buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”. Não escondia de ninguém que adorava uma polêmica, cultivando seus desafetos com todo esmero. Para isso, contava com um espaço privilegiado nas páginas dos principais jornais do Brasil, para os quais escrevia desde os 13 anos de idade. E foi entre 1967 e 1977 que mais se dedicou às crônicas, publicadas em três jornais (Jornal dos Sports, Correio da Manhã, O Globo), além de lançar livros de memórias e confissões. Em contrapartida, escreveu apenas uma peça no período (“Anti-Nelson Rodrigues”, em 1973). Nas mais de sete mil crônicas que assinou, passava de temas relativamente amenos, como futebol, comportamento e relações amorosas, aos acirrados debates políticos e culturais da época, confrontando sedutoras novidades, como o poder jovem, o comunismo, o feminismo e as passeatas.

A batalha ideológica travada entre os intelectuais do humor mobilizou até os leitores do tablóide semanal. Na sessão “Cartas” da edição de janeiro de 1970, opiniões sentimentais davam densidade às polêmicas. “A intelectualidade pequeno-burguesa tem n’O Pasquim o seu órgão oficial e a coisa tende a se firmar como tal. Com o tempo, O Pasquim irá não somente refletir normas, como também ditar normas, e isso é muito sério. É preciso que vocês saibam sempre o que estão fazendo e até onde devem ir. Devem procurar isolar também a intelectualidade festiva, que procura fazer do jornal um oásis de frescura”, provocou um leitor paulista. Outro, também de São Paulo, demonstrava desdém pelos dois lados contendores: “O sujo falando do mal lavado. Pior que o Nelson Rodrigues só O Pasquim. Pois se o que o sr. Nelson Rodrigues escreve não tem conteúdo, pelo menos escreve português certo por linhas tortas. O Pasquim, além de apresentar aberrações em português, não tem conteúdo”. O difícil é saber se as cartas eram reais ou inventadas pela própria equipe do jornal.

Em 1972, um drama pessoal colocou os pasquinianos e Nelson Rodrigues do mesmo lado da trincheira. Julgado por atos contra a Segurança Nacional, Nelson Rodrigues Filho foi condenado a mais de 70 anos de prisão. Assim o cronista, que nunca escondera seu apoio ao regime, viu-se defendendo a anistia e amargou a pavorosa verdade de que seu nome e sangue, Nelsinho, fora torturado nos cárceres da ditadura.

Em carta publicada no Jornal do Brasil em meados de 1979, Nelson Rodrigues dirigiu-se diretamente ao presidente da República, João Batista Figueiredo (1918-1999), num tom que misturava lirismo e cáustica ironia sobre a clandestinidade, a prisão e a tortura do filho, e pediu a anistia nestes termos: “Ora, um presidente não pode passar por um amanuense. Há uma anistia. Tem que ser uma anistia histórica. O que não é possível, presidente, é que seja uma anistia pela metade. Uma anistia que seja quase anistia. O senhor entende, presidente, que a terça parte de uma misericórdia, a décima parte de um perdão não tem sentido. Imagine o preso chegando à boca da cena para anunciar: – ‘Senhoras e senhores, comunico que fui quase anistiado’”.

Para O Pasquim, que era considerado o jornal dos presos políticos e exilados (muitas vezes entrevistados na prisão ou no exílio), a luta era diferente: anistia sim, mas não para os dois lados. Na segunda semana de setembro daquele ano, publicaram sua posição definitiva: “Um jornal a favor dos que são contra”. Na mesma edição, além de charges que denunciavam os rumos do projeto governamental, na sessão “Dicas”, Ziraldo apresentou uma concepção de anistia “Anti-Nelson Rodrigues”: “Anistia não é troca. Queremos anistia ampla, geral e irrestrita, mas não recíproca. Lutar por anistia, querer a anistia não é ter bom coração. É um ato político. Quem mata nos cárceres pessoas indefesas e amarradas não pode ser anistiado”. A comparação dos dois textos deixa claro que, apesar de sua trágica situação, Nelson mantinha-se fiel ao tom irônico de suas crônicas. Enquanto isso, até críticas internas reconheciam que o jornal e seus articulistas, depois de dez anos, estavam se tornando muito sérios, pouco criativos e mesmo mal-humorados.

Com a ditadura chegando ao fim, as coisas haviam mudado muito. Ficou a lição de que a História do Brasil tinha sido muito mais complexa do que as guerras humorísticas. Na verdade, tinha sido mais dolorosa, como se obedecesse a uma espécie de lógica do pior. Algo como sugeriu o filósofo Clément Rosset, citando Auguste Comte: “Sejamos felizes, tudo vai mal”.

Elio Chaves Flores é professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e autor da tese “República às Avessas: narradores do cômico, cultura política e coisa pública no Brasil contemporâneo (1930-1993)”, UFF, 2002.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Biografia de Nelson Rodrigues


Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife, em 1912. Aos 5 anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar na Rua Alegre, em Aldeia Campista, bairro que depois seria absorvido pelos vizinhos Andaraí, Maracanã, Tijuca e Vila Isabel. Em contato com a imaginação fértil do futuro escritor, a realidade da Zona Norte carioca, com suas tensões morais e sociais, serviu como fonte de inspiração para Nelson construir personagens memoráveis e histórias carregadas de lirismo trágico.

Aos 13 anos, ingressa na carreira de jornalista, trabalhando como repórter policial em A Manhã, um dos jornais fundados por seu pai, Mário Rodrigues, que marcaram época – o segundo foi Crítica, palco de uma tragédia que abalaria o dramaturgo profundamente: o assassinato de seu irmão, o ilustrador e pintor Roberto Rodrigues, em 1929.

Lado a lado com o teatro, o jornalismo foi para ele um ambiente privilegiado de expressão. Dentre seus textos propriamente jornalísticos, destacam-se aqueles dedicados ao futebol, em que empregou toda sua veia dramática, transformando partidas em batalhas épicas e jogadores em heróis. Trabalhou nos mais diversos jornais e revistas, assinando artigos e crônicas, como a popular e discutida coluna “A Vida Como Ela É…”.

Em 1943, a consagração no Teatro Municipal do Rio de Janeiro: sua segunda peça, Vestido de Noiva, montada por um grupo amador, Os Comediantes, dirigida pelo polonês recém-imigrado Ziembinski e com cenários de Tomás Santa Rosa, revolucionava a maneira de se fazer teatro no Brasil. Sua peça seguinte, Álbum de Família, de 1946, que trata de incesto, foi censurada, sendo liberada apenas duas décadas depois. Dali em diante, sua obra despertaria as mais variadas reações, nunca a indiferença.

O prestígio alcançado pelo reconhecimento de seu talento não livrou-o de contestações ou perseguições. Classificado pelo próprio Nelson Rodrigues como “desagradável”, seu teatro chocou plateias, provocando não apenas admiração, mas também repugnância e ódio, sentimentos muitas vezes alimentados por seu temperamento inclinado à polêmica e à autopromoção.

Nelson Rodrigues morreu no Rio de Janeiro, em 1980, aos 68 anos. Além dos romances, contos e crônicas, deixou como legado 17 peças que, vistas em conjunto, colocam-no entre os grandes nomes do teatro brasileiro e universal.
(Texto extraído do site http://www.funarte.gov.br)