Nos extremos ideológicos da ditadura,
Nelson Rodrigues e O Pasquim trocaram farpas afiadas, mas acabaram aderindo à
mesma causa: a defesa da anistia.
Elio
Chaves Flores
7/7/2008
• Lançado em
junho de 1969, no olho do furacão das tensões que varriam o Brasil e o mundo, o
tablóide humorístico O Pasquim não poderia ter outro alvo preferencial para
suas críticas que não os “brucutus” do governo militar.
Bater na ditadura – embora com o evidente cuidado de driblar
os censores – era quase uma obrigação. E não havia do outro lado resposta à
altura das ironias inteligentes de jornalistas e chargistas como Sérgio Cabral,
Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo e Millôr Fernandes. Foi no front intelectual
que eles encontraram um opositor com gabarito para enfrentá-los: o consagrado
dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980). Por seu temperamento genioso, irônico
e anticomunista, o genial autor de “Vestido de Noiva” encarnava o representante
máximo da execrável direita inteligente. Escolhido como símbolo reacionário,
rapidamente entraria na mira do jornal alternativo. E não o deixaria sem
resposta.
Na verdade, não é possível saber que lado começou a
contenda. Desde o golpe militar de 1964, a tensão entre perseguidores e
perseguidos estava presente não somente nos partidos políticos e sindicatos,
mas também nos nichos da intelectualidade, especialmente nas universidades e na
imprensa. Em 1968, Nelson Rodrigues publica uma sátira cruel à Passeata dos Cem
Mil, a maior manifestação da década contra a ditadura militar. Sob o rótulo de
“esquerda festiva”, alfineta as classes médias que contestavam o regime: “Os
Cem Mil eram filhos da alta burguesia. E, com efeito, não havia, entre os
manifestantes, um preto, um favelado, um torcedor do Flamengo e sequer um
desdentado. Os Cem Mil tinham uma saúde dentária de artista de cinema. Um
turista, que por aqui passasse e os visse, havia de perguntar: - Mas a alta burguesia quer tomar o poder que
já tem?” Em outra crônica do mesmo ano, perguntaria pelas figuras obrigatórias
nas manifestações populares que, segundo ele, não estavam presentes nem nas
passeatas nem nas fotografias da revista Manchete: “os negros, o vendedor de
laranjas, o batedor de carteira e a mãe plebéia, a santa crioula que tira o
seio negro e generoso e dá de mamar ao crioulinho sôfrego”.
Em outubro de 1969, noventa dias depois de criado O Pasquim,
o confronto O Pasquim tejá era aberto.
“De vez em quando, vem alguém me dizer:
meteu o pau! Ora, não me considero uma glória oficial”, escreveu Nelson
Rodrigues em uma crônica amargamente intitulada “Humoristas Rancorosos”. Nela,
o cronista propõe uma análise histórica sobre o humor nacional. “Sabemos que o
brasileiro é o único povo que faz piada. Se não temos um é a piada que torna inviável qualquer
Dráculavampiro, estejam certos:
brasileiro. No fundo, no fundo, a piada é um gesto de amor. É ou era.
Mas os tempos passam e os usos, costumes, valores, sentimentos vão mudando”. Ao
comparar os humoristas da velha geração com as críticas esquerdistas de seu
tempo, conclui, certeiro: “Há muitos anos que não acho graça nos humoristas
brasileiros. Mas sempre achei que o defeito era meu. Só agora é que,
acidentalmente, lendo O Pasquim, vejo que as coisas mudaram muito. Deixando de
lado duas ou três exceções, faz-se, no Brasil, o humorismo do ressentimento”.
De fato, era um desafio preservar a leveza e a eficácia do
humor nos anos de chumbo. Com a pauta das edições sempre no campo de lutas das
esquerdas ou, pelo menos, com um forte sentimento de oposição à ditadura, os
pasquinianos não cansavam de estimular a polêmica entre intelectuais. Suas
entrevistas, realizadas ora em botecos, ora na redação, tornaram-se momentos de
discussões acirradas sobre desafetos e ex-amigos. Em maio de 1970, Chico
Anísio, um dos astros do humorismo televisivo, respondeu assim quando lhe
pediram sua opinião sobre Nelson Rodrigues: “É invejoso em primeiro lugar.
(...) Tudo o que ele escreve, as coisas mais dramáticas, eu acho graça. Eu acho
ele um tremendo humorista, embora ele pense que é um dramaturgo”. Dois anos
depois, o entrevistado seria o escritor Antonio Callado (1917-1997), autor de
um dos romances referenciais sobre a luta armada: Quarup, de 1967. Callado
havia sido amigo íntimo de Nelson Rodrigues, que o transformara em personagem
de vários de seus escritos nos jornais. A amizade foi sepultada quando Nelson
publicou a crônica “Adeus a um amigo socialista”. No texto, indagava como um
intelectual, com “um sorriso bem ensaiado, de uma compassiva ironia”, podia
defender o assassinato de inocentes, isto é, que para os guerrilheiros fosse
legítimo executar embaixadores. Não foi possível comprovar que Callado
realmente tenha dito isso, mas com certeza Nelson generalizou uma idéia dele.
Quando os entrevistadores de O Pasquim abordaram o tema, Callado afirmou que,
na República, “as idéias são tidas como menos importantes que os amigos”. E
emendou, ácido: “Nelson Rodrigues é o grande clássico das Forças Armadas”.
Entre as teses destiladas por Nelson, a que mais irritava
Ziraldo, Jaguar e companhia era de que as esquerdas e os socialistas dominavam
as redações dos jornais. Como acusações do gênero eram publicadas quase
diariamente nas páginas de O Globo, suas crônicas eram vistas como um pedido
para que a polícia prendesse jornalistas. Soava como dedurar colegas e
profissionais da classe, “uma vocação legítima de pelego jornalístico” e
“pau-mandado da direita”, nas palavras de O Pasquim.
As esquerdas também procuravam reduzir seus méritos
artísticos, lançando mão de um discurso moralista: o dramaturgo era tachado de
polêmico, maldito e tarado. Mas isso era como atirar na água. O próprio Nelson
definia-se como um espectador privado e intimista dos costumes e obsessões da
sociedade brasileira: “O buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de
ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”. Não escondia de ninguém
que adorava uma polêmica, cultivando seus desafetos com todo esmero. Para isso,
contava com um espaço privilegiado nas páginas dos principais jornais do
Brasil, para os quais escrevia desde os 13 anos de idade. E foi entre 1967 e
1977 que mais se dedicou às crônicas, publicadas em três jornais (Jornal dos
Sports, Correio da Manhã, O Globo), além de lançar livros de memórias e
confissões. Em contrapartida, escreveu apenas uma peça no período (“Anti-Nelson
Rodrigues”, em 1973). Nas mais de sete mil crônicas que assinou, passava de
temas relativamente amenos, como futebol, comportamento e relações amorosas,
aos acirrados debates políticos e culturais da época, confrontando sedutoras
novidades, como o poder jovem, o comunismo, o feminismo e as passeatas.
A batalha ideológica travada entre os intelectuais do humor
mobilizou até os leitores do tablóide semanal. Na sessão “Cartas” da edição de
janeiro de 1970, opiniões sentimentais davam densidade às polêmicas. “A
intelectualidade pequeno-burguesa tem n’O Pasquim o seu órgão oficial e a coisa
tende a se firmar como tal. Com o tempo, O Pasquim irá não somente refletir
normas, como também ditar normas, e isso é muito sério. É preciso que vocês
saibam sempre o que estão fazendo e até onde devem ir. Devem procurar isolar
também a intelectualidade festiva, que procura fazer do jornal um oásis de
frescura”, provocou um leitor paulista. Outro, também de São Paulo, demonstrava
desdém pelos dois lados contendores: “O sujo falando do mal lavado. Pior que o
Nelson Rodrigues só O Pasquim. Pois se o que o sr. Nelson Rodrigues escreve não
tem conteúdo, pelo menos escreve português certo por linhas tortas. O Pasquim,
além de apresentar aberrações em português, não tem conteúdo”. O difícil é
saber se as cartas eram reais ou inventadas pela própria equipe do jornal.
Em 1972, um drama pessoal colocou os pasquinianos e Nelson
Rodrigues do mesmo lado da trincheira. Julgado por atos contra a Segurança
Nacional, Nelson Rodrigues Filho foi condenado a mais de 70 anos de prisão.
Assim o cronista, que nunca escondera seu apoio ao regime, viu-se defendendo a
anistia e amargou a pavorosa verdade de que seu nome e sangue, Nelsinho, fora
torturado nos cárceres da ditadura.
Em carta publicada no Jornal do Brasil em meados de 1979,
Nelson Rodrigues dirigiu-se diretamente ao presidente da República, João
Batista Figueiredo (1918-1999), num tom que misturava lirismo e cáustica ironia
sobre a clandestinidade, a prisão e a tortura do filho, e pediu a anistia
nestes termos: “Ora, um presidente não pode passar por um amanuense. Há uma
anistia. Tem que ser uma anistia histórica. O que não é possível, presidente, é
que seja uma anistia pela metade. Uma anistia que seja quase anistia. O senhor
entende, presidente, que a terça parte de uma misericórdia, a décima parte de
um perdão não tem sentido. Imagine o preso chegando à boca da cena para anunciar:
– ‘Senhoras e senhores, comunico que fui quase anistiado’”.
Para O Pasquim, que era considerado o jornal dos presos
políticos e exilados (muitas vezes entrevistados na prisão ou no exílio), a
luta era diferente: anistia sim, mas não para os dois lados. Na segunda semana
de setembro daquele ano, publicaram sua posição definitiva: “Um jornal a favor
dos que são contra”. Na mesma edição, além de charges que denunciavam os rumos
do projeto governamental, na sessão “Dicas”, Ziraldo apresentou uma concepção de
anistia “Anti-Nelson Rodrigues”: “Anistia não é troca. Queremos anistia ampla,
geral e irrestrita, mas não recíproca. Lutar por anistia, querer a anistia não
é ter bom coração. É um ato político. Quem mata nos cárceres pessoas indefesas
e amarradas não pode ser anistiado”. A comparação dos dois textos deixa claro
que, apesar de sua trágica situação, Nelson mantinha-se fiel ao tom irônico de
suas crônicas. Enquanto isso, até críticas internas reconheciam que o jornal e
seus articulistas, depois de dez anos, estavam se tornando muito sérios, pouco
criativos e mesmo mal-humorados.
Com a ditadura chegando ao fim, as coisas haviam mudado
muito. Ficou a lição de que a História do Brasil tinha sido muito mais complexa
do que as guerras humorísticas. Na verdade, tinha sido mais dolorosa, como se
obedecesse a uma espécie de lógica do pior. Algo como sugeriu o filósofo
Clément Rosset, citando Auguste Comte: “Sejamos felizes, tudo vai mal”.
Elio Chaves Flores é professor da Universidade Federal da
Paraíba (UFPB) e autor da tese “República às Avessas: narradores do cômico,
cultura política e coisa pública no Brasil contemporâneo (1930-1993)”, UFF,
2002.
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